Momento de mercado: o que está acontecendo com o Tesouro Selic?


Estamos vivendo um momento particular no mercado. Aliado a ele, a nossa taxa básica de juros, a Selic, está a 2% ao ano. Trata-se de uma mínima histórica.


Agora, além da Selic estar baixa, o investidor também se depara com um fenômeno novo: o rendimento negativo de fundos indexados ao Tesouro Selic, a antiga LFT. Ou seja, fundos como o nosso Tesouro Selic Simples FI RF.


Esse evento não acontecia desde 2002, quando o Banco Central exigiu que os preços dos títulos que compunham o fundo fossem marcados a mercado. Ou seja, que os fundos refletissem, de fato, o preço real dos ativos que eles tinham na carteira. Isso levou a quedas de mais de 3% nos fundos atrelados ao título Tesouro Selic.


O que é o Tesouro Selic?


É um título público negociado pelo Tesouro Direto. Trata-se de um ativo de Renda Fixa, pós-fixado, atrelado à taxa Selic. O usual desse título é performar 100% da Selic ou 101% do CDI.


O que está acontecendo com o Tesouro Selic?


Se você está buscando respostas sobre o Tesouro Selic, é preciso entender que alguns fatores têm influenciado os títulos.


Primeiro fator


As necessidades de financiamento do Governo se elevaram significativamente, levando a uma maior necessidade de ofertar títulos. Ou seja, um aumento na emissão de títulos públicos para financiar as despesas governamentais. Isso aconteceu por conta de uma série de motivos, como: pagamento do auxílio emergencial e o déficit de 2020 projetado em quase R$ 1 trilhão.


Então, a performance negativa do título está ligada ao fato de os agentes econômicos estarem enxergando um aumento nos fatores de risco dos títulos do Governo. Logo, o Tesouro precisa pagar um Prêmio de Risco maior para manter os seus títulos atrativos. Isso faz com que os títulos já ofertados, com taxas menores, se desvalorizem.


O prêmio exigido pelas antigas LFTs estava em 0,003% e passou para 0,01%. E, se a taxa aumenta, o preço do título cai.


Segundo fator


As expectativas futuras para a taxa de juros estão se elevando. Ou seja, é cada vez mais esperado uma alta da Selic no futuro. Isso faz com que, títulos com taxas pré-fixadas, melhorem o seu retorno (ex: o título que antes pagava 4%a.a., agora vai pagar 5%a.a.). Dessa forma, os Grandes Agentes (como fundos de investimento e fundos de pensão) percebem uma estratégia para melhorar os seus retornos. Eles utilizam como estratégia a LFT sintética. Trata-se de uma compra casada de LTN (título prefixado do governo), com vencimento mais longo (então aproveitando-se dessas taxas maiores), com uma proteção contra a marcação a mercado* desses títulos. Dessa forma, eles conseguem entregar um retorno mais atrativo que o Tesouro Selic e permanecer indexado ao CDI.


Esse fator contribuiu para um aumento na oferta de Tesouro Selic e para uma queda na demanda. Logo, o preço do título caiu.


Quais são as perspectivas para esse cenário?


Para que as taxas retornem à normalidade, é necessário que se vislumbre uma melhora efetiva nas perspectivas fiscais, juntamente com a normalização do patamar da taxa Selic.



*Marcação a mercado: Conforme as expectativas futuras para a nossa economia pioram, as taxas pré-fixadas aumentam. E conforme as expectativas futuras melhoram, as taxas diminuem. Isso está totalmente atrelado a percepção de risco.


Vamos supor que você tenha comprado uma NTNB a IPCA + 4,5%a.a., pouco tempo depois é aprovada uma reforma que irá contribuir para a redução dos gastos do governo. Esse impacto é positivo. Logo, a percepção de risco diminui, e com ela a taxa ofertada pelo título. Hoje, o mesmo título pode ser adquirido a taxa de IPCA + 3%a.a., e você permanece com a sua NTNB a IPCA +4,5%a.a. O seu título vai, então, vai valer mais do que os outros, caso você venda antes do vencimento. Logo, haverá um impacto positivo da marcação a mercado.



O conteúdo disposto neste artigo foi originalmente publicado no blog do BTG Pactual Digital, sendo toda a responsabilidade, direitos autorais e crédito devido a seus autores.